Sumidouro, Adriana Coppio

O que me faz admirar a pintura da Adriana permanece para mim misterioso, porque gostar de uma pintura é sempre assim, acho, mas tento elaborar: há esse gênero de pintura contemporânea marcado por um tipo (europeu) de distanciamento. Germânica, belga, e de rincões afim, essa pintura pretende provocar indiferença,

e tanto a escolha das imagens quanto a fatura são construídas com uma espécie de anti-sedução que, afinal, se torna atraente em seus próprios termos. Originária dos anos 60, da frieza glacial de um pop que abraçou a morbidez, essa forma pictórica retorna com tudo nos anos 90, análoga do heroin chic e do shoe gaze, formas estéticas da resignação globalizada com o triunfo do capitalismo – esse mundo que, se não prometia projetos de emancipação radical, conseguia vender ainda a ideia de que a vida que não iria piorar tanto, de que podíamos manejar a miséria, de que seria possível adoecer sem morrer, e o racismo nunca mais encoraria no apartheid a  oficialidade institucional,

e assim por diante.

 

A estética de intensidade média, de Belle and Sebastian, de Jim Carrey e das Boy Bands, pintavam-na Luc Tuymans, com largueza rala em tons rebaixados, Borremans e sua arte pós-histórica, Sasnal e sua política resfriada das imagens. Nada fazia muito mal nem muito bem, como um purê de batatas com frango empanado numa praça de alimentação, porque a política do FHC também não era o fim do mundo para a classe média e hoje se vê por aí uma certa nostalgia triste que dói daquele tempo em que garoava sempre, mas as coisas não desabavam – e de fato a maior tragédia de nosso tempo é o desejo utópico pela normalidade, e lá em 92 a gente já sabia que a catástrofe climática chegaria, e que o mundo se dividiria entre os salvos e os deixados para trás, mas preferimos curtir de boinha as últimas canções do Radiohead, deitados no quarto em posição fetal. 

A pintura da Adriana parece situar-se nessa tradição desencantada. Vários dos procedimentos evocam elementos da pintura dos anos 90/2000: o uso da fotografia como elemento estrutural – o “crop” que isola um brinquedo abandonado num parque, o detalhe dos pés de um elefante – a palheta de tons envelhecidos, em que predominam ocres e cinzas que fecham um alaranjado vivo, as pontuações de verdes e azuis, como nos esquetes sobre madeira de Rubens ou nas modestas pinturas italianas de Corot, além de uma relação com o álbum fotográfico anônimo, a infância perdida, o passado não datado.


 

No entanto, se tudo isso constitui um léxico frequente na pintura recente, há especificidades maravilhosas no modo como Adriana aborda essa tradição. Porque suas pinturas, ao contrário da apatia supostamente crítica de seus pares, guardam um encantamento genuíno com o mundo e com a pintura em si. Primeiro, raramente as suas pinturas apresentam uma homogeneidade de tratamento. Sempre disciplinadas pela imagem, pinceladas largas e encaracoladas convivem com tratamentos mais delicados, em camadas. Sobre o frio da imagem distante, encontramos um certo cobertorzinho brejeiro, que está nos amarronzados envelhecidos, nos azuis que se esverdeiam como as reproduções em offset de velhos escritórios, e em temas como os brinquedos abandonados de parques e hotéis decadentes (quebrada e maltratada, a atração da baleia se torna mais realista do que nunca), os passarinhos (tema incontornável, assim como a imagem de Nossa Senhora) e mesmo o urubu pousado debaixo de um calorão.

 

Então, capturados pela fatura honesta e pelo climão da sua palheta, ficamos entregues a seus mais belos momentos, aqueles que desafiam nossa capacidade de suspender a descrença diante de uma representação: o edifício em forma de cone, à frente do que parece ser uma casa modernista, ou o buraco insólito na piscina a frente da cachoeira estão e não estão, inseridos por inteiro no universo da pintura, e é assim também que suspeitamos encontrar um rosto no morro que sustenta uma cidade ou uma paisagem no casco da pata de um cavalo. 

 

Ao contrário do cinismo ou do distanciamento de tantos de seus contemporâneos, Adriana propõe uma adesão intensa ao mundo, ao prazer de olhar, à convivência com os mistérios da imagem, que sempre diz mais e menos do que se supõe. Pintora das mais versáteis e das mais francas – adoro olhar para o que Adriana faz.

Pedro França
artista plásico