Capim d´Angola, Adriana Coppio

Das cidades que habitam sonhos de veludo azul - e verde-amarelo também. 

Victor Gorgulho

 

Comecemos pelas pistas mais evidentes, pelos signos mais familiares aos olhos do espectador desamparado de direções concretas no portal de entrada desta cidade-labirinto. Uma estrada erma, um céu crepuscular em revoada de morcegos, construções arquitetônicas erguidas sobre bases improváveis, seres humanos e seres de outras ordens também. Criaturas ambíguas.

 

Miremos a Capela, a princípio. Trôpega, sustenta-se sobre um barranco, sugerindo-nos uma paisagem tão física quanto emocional. A igreja de uma cidade do interior. De dentro dela, luzes amarelo-neon irradiam, pulsam. Estamos dentro de um sonho ou de uma paisagem real? Não há placas, mapas ou indicativos de qualquer sorte que nos guiem por aqui. Estamos à deriva, ainda que em terra firme. 

 

Cruzamos com figuras humanas que, à distância, acreditamos conhecer – ou tentamos acreditar que as reconhecemos – seres guardados em algum lugar remoto de nossas memórias individuais. Um pouco mais de perto, recuamos em silêncio. Basta uma simples mirada para sermos tomados completamente por repulsa e atração. Quem são? 

 

Não há saída aparente. Estamos em Capim D’Angola, um gentil senhor desavisado atende à nossa pergunta ofegante. Estamos no Brasil. Estamos no interior do país.

 

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É um tanto comum – e por vezes enfadonha – a tentativa de situar determinada prática pictórica contemporânea entre os esgotados territórios conceituais da figuração e da abstração, campos limítrofes, gavetas teóricas ultrapassadas e um tanto emperradas na hora de abrirem-se por completo, ao revelarem suas entranhas e contradições, interseções e impossibilidades. 

As magnéticas pinturas de Adriana Coppio reclamam para si uma radical contemporaneidade que lhes é própria e irrevogável. Ao passo que a artista nos catapulta a uma viagem semi-lisérgica por um cenário tão reconhecível quanto deveras estranho, todas as classificações categóricas – portanto, implacáveis - típicas do léxico da arte contemporânea, parecem cair por terra. Ou melhor, suspendem-se em elevação direta ao céu erguido pelas velozes pinceladas da artista. 

A “radical contemporaneidade” de suas obras pode ser justificada por chaves de leitura que, apesar de distintas, acabam por revelarem-se complementares. Estamos diante de paisagens, de retratos, de casas, construções e cenas típicas da representação de um Brasil profundo, interiorano, guardado nas mais tenras utopias de uma nação dócil e possível. Uma imagem-projeção, um eterno lançamento entrópico a um tempo que nunca chegará.

 

Vislumbramos aqui igrejas, vegetações e personagens que tanto nos remetem a tradição plástica da pintura moderna brasileira – Guignard, sobretudo, em suas sombrias paisagens, parece estreitar laços afetivos com a prática de Coppio – ao passo que nos lançam além, um tanto além. Estamos em suspensão, não esqueçamos. Não há placas e nem mapas, apenas vestígios, pistas e parcas indicações.

Sem lançar mão de artifícios extravagantes, de exageros pictóricos, Coppio nos conduz delicadamente por seu universo próprio, espantosamente autoral. Natural de Taubaté, no interior de São Paulo, a artista não hesita em tornar evidente seu interesse pelas histórias do folclore brasileiro, por mitologias e lendas típicas da vivência do campo. Capim D’Angola, por exemplo, região próxima a São José dos Campos onde encontra-se a capela da pintura homônima, reforça este ímpeto. 

 

Mito e memória alimentam suas pinturas, amparam sua prática a um só tempo referencial à tradição plástica moderna e também à contemporânea, quando a artista bebe, por exemplo, nas fontes da psicanálise. Carl Jung e seu livro vermelho, o interesse por imagens do inconsciente, por antigas fotografias de sua família e por um fazer artístico pautado pela intuição e pelo atravessamento de coincidências de toda sorte. 

 

A atmosfera onírica, as tintas soturnas e o indeciso céu crepuscular de suas pinturas nos confundem, afinal. Capim D’Angola é mesmo aqui? 

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Convencidos de que não há saída fácil dentro deste labirinto fantasmagórico e um tanto real, o visitante de Capim D’Angola decide percorrer seus becos, meandros e cantos variados. Depara-se com seres ubíquos, animais abjetos, uma noiva saindo de uma gruta a nos fitar em seu olhar enigmático.

 

Cidade adentro, criaturas proliferam-se, indiscerníveis a olho nu. Da incandescente paisagem diurna – amarela, saturada, verde e neon – somos lançados a irredutibilidade do preto e do branco. Mandrágoras, portais, delírio, fervor, encantamento e explosões. Capim D’Angola não é uma paisagem dócil, isto nos é posto, em nada trata-se de uma cidade fácil de reter em nossas desavisadas retinas. 

 

A enorme lua vermelha que paira no céu anuncia uma noite infinda, eterna. Estamos presos aqui? Não há tempo cronológico aparente e tudo segue em suspensão contínua, irreversível. Guignard encontra David Lynch e Arrigo Barnabé numa esquina da cidade. Juntos, tomam um pequeno pedaço de LSD e soltam uma robusta gargalhada. Estamos presos e não mais queremos sair. 

 

Capim D’Angola é um delicioso sonho de veludo, uma espécie de Bacurau em chamas e belas ruínas idealizadas. Paisagem impossível, impalpável. Uma cidade pura, um microcosmo de Brasil fora do Brasil – estamos mesmo no Brasil?, reiteramos a pergunta. 

 

À distância, aproxima-se o carrasco, à galope em nossa direção. Pulsa dentro do peito o coração selvagem de quem reconhece a paisagem na memória cada vez menos distante. O cavalheiro anuncia: não chegará a noite e tampouco tardará o dia a passar. Nos encontraremos eternamente pausados no entre, no angustiante limiar entre a consciência humana e o fazer plástico – é tudo pintura, afinal!, relaxem! Respiremos aliviados, ainda que a voz não consiga projetar-se na densa atmosfera densa de Angola. Tudo, então, permanecerá amarelo e também preto; azul e também cinza; verde e também chumbo. 

 

Estamos no coração do Brasil: ao menos até que acordemos do fascinante e perturbador sonho ao qual Adriana Coppio nos lança. Nos cabe escolher acordar ou permanecermos deitados em berço esplêndido, tomados por sonhos profundos, gozando de um silêncio retumbante. O coração selvagem pulsa, o delírio nos cobra, a realidade é inescapável. Entre sair ou permanecer, uma escolha irredutível: estamos no Brasil, tudo aqui é o Brasil. Não nos deixemos enganar. Voltemos ao início.