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Nessum dorma 

O trabalho de Janina McQuoid é feito de pedaços quebradiços que procuram, aos solavancos, representar as experiências pessoais da artista. Entre o depoimento e a alegoria, Janina tenta juntar as partes novamente, como quem recupera de um trauma. Quando reunidos, os fragmentos não reconstroem uma imagem apaziguadora, pelo contrário, tornam-se figuras monstruosas. 

Esse caráter de caco de porcelana, peça perdida de máquina, papel amassado, massa mascada, desperta em mim interesse e dúvida. Não sei ainda muito avaliar o sentido desse teatro grotesco, nem tenho certeza da relação entre a forma e o depoimento pessoal. De qualquer modo, foi essa aparência incompleta que fez com que eu visse os seus trabalhos aqui expostos menos como elementos isolados e autônomos, e mais como parte de uma unidade mais ampla, de um conjunto que dá sentido às obras. A artista, de fato, pensa a exposição como uma unidade mais ou menos narrativa, feita de memórias, dores, delírios. Não por acaso, a nomeia como Rapsódia do côco. 

É irresistível estabelecer nexos entre as máscaras e as pinturas, os relevos e as esculturas. Os trabalhos  ganham quando comparados uns aos outros. Um trio particular de esculturas, contudo, aparenta ser uma coisa só. Através dele, li toda a exposição. O grupo é formado pelas peças Picareta, Cama de ferro suspensa e Coquinho, todas de 2021.

Picareta é uma lasca de pedra sabão, que faz as vezes de cabeça. Assim parece,

por ela estar alocada diante dos travesseiros de uma cama ampla, que não tem pés, portanto não pousa sobre o chão. A junção de cama e pedra se vê rodeada e assombrada por outras imagens em forma de escultura, pintura e relevo. Perto da cama, à espreita, está Coquinho, uma figura monstruosa de papel machê, entre o monstro de conto infantil, a máscara e a imagem da paranoia. Ele não se aproxima do colchão, mas ronda, esperando o momento para dar o bote. 

 

O trabalho seria uma alegoria, similar a outras alegorias perversas de uma convenção antiga na história da arte: a observação do sono. Uma das pinturas mais conhecidas a figurar tal tema é Pesadelo (1781), do artista anglo suíço Henry Fuseli (1741-1825). O tom da pintura é o da fábula moralista. Nele, uma mulher adormecida, é pega desprevenida por um demônio, que se senta pesado sobre ela. 

O Sucubus a ataca para que ela se mantenha presa aos seus sonhos intranquilos. 

No trabalho de Janina, embora exista a ideia do terror à espreita, ninguém dorme. Todos estão de olhos abertos, sem saber ao certo o que acontece em seu arredor. Em uma alegoria da pandemia, os picaretas estão sem descanso, encerrados em seus cubículos, agarrados às suas memórias borradas, vendo todos com máscaras deformadas, sem saber quem é quem e temendo pelo pior. 

Tiago Mesquita
curador e crítico de arte