Cópia de PS0101_ Ana Pigosso-web.jpg

Estranhamente Familiar, Paula Scavazzini

Estranhamente Familiar

Quando fui pela primeira vez ver as pinturas de Paula no seu ateliê, há poucos meses, a “família” já estava lá. De pé, com suas máscaras e espécies de fantasias que soube depois, eram “roupas de casamento”. Já de cara me inquietaram aquelas personagens e eu não queria parar de olhar. Era um pouco família Adams pelo quê bem humorado (a julgar pelo homem com cabeça de saco de pipoca) e ao mesmo tempo circunspecto da cena. Me dá muito prazer olhar para as pinceladas fluidas com as cores contrastantes como o roxo e o alaranjado e um e outro detalhamento como a calça xadrez do menino à direita e as pinturas na parede à esquerda, interrompidas pelo enquadramento do conjunto. 

 

Havia ainda outras pinturas de elementos decorativos como “Tecido  adamascado” e “Tapeçaria Gobelin” e entendi ali que aquilo era uma espécie de coincidência incrível. Paula estava pintando algum ambiente fictício (ou real), acessando memórias em fotografia anônimas ou em lembranças pessoais de lugares visitados. Mas pra mim aconteceu uma espécie de efeito Proust, uma viagem para uma parte de minha própria memória afetiva. Aquele casamento da fotografia poderia ter acontecido na minha família. Sou neta de libaneses que se instalaram em Minas Gerais no início do século XX e como a grande maioria dos imigrantes sírio-libaneses, meus avós fizeram a vida como comerciantes e pelos anos 1970, com a família crescida, viajaram um pouco pelo mundo e decoraram a casa ao estilo Luis XV, como pessoas de “bom gosto” deveriam fazer. Minha memória de infância é povoada de mobiliários meio rococó, cópias de pinturas do Louvre, objetos “orientais” decorados com cedros, lustre de vidro imitando cristal, tecidos adamascados ...

O gatilho inicial para os mais de 20 trabalhos realizados por Paula nos últimos meses foi uma imagem encontrada, como ela mesmo conta: 

 

“eu encontrei uma foto dos anos 70, de uma família de imigrantes libaneses aqui no Brasil, que me atraiu por alguns aspectos. Pelas cores, pelas roupas, pelo posicionamento das pessoas e pelo pouco da decoração da casa que era possível de se ver; pela vontade e prazer de ficar dias debruçada, olhando pra aquela imagem e pintando e criando a partir dela; e por suas origens, por eu ter uma atração inexplicável pelo « mundo árabe ». Enquanto eu pintava a família resolvi criar a continuação da decoração dessa casa, que quase não aparecia na foto, quase como uma forma de matar a minha própria vontade de conhecer o resto da casa e da personalidade dessa família.” 

Estamos imersos aqui, Paula, você e eu, na experiência do Unheimlich, o “inquietante” ou “estranhamente familiar” descrito por Freud em 1919 (mas até hoje constantemente revisitado e revisto)*. O estranhamente familiar é a sensação que acontece quando se está em algum lugar estrangeiro, novo, mas que ao mesmo tempo se percebe íntimo e pessoal. Ou ainda como uma sensação de intemporalidade pela via do passado que se faz presente e anuncia uma espécie de perda daquilo que passou. Freud também descreve essa experiência como “algo que deveria ter permanecido oculto, mas veio à luz”, como aquela nossa percepção infantil de medo do escuro porque no escuro aparecem rostos e sombras incompreensíveis. 

 

Algumas pinturas do conjunto parecem revelar cantos silenciosos e vazios da casa. Em “Mesa de Jantar” se vê uma mesa arrumada com toalha e enfeites mas totalmente desocupada. As linhas em diagonal produzem um efeito de relance, ou de uma fotografia mal enquadrada feita por acaso ou por alguém que estava sozinho sentado à mesa, talvez? Portanto, essas pinturas também evocam um mistério como se estivéssemos num filme de David Lynch. Ou ainda um “assombramento” ao qual a artista se refere a partir de um trecho do conto de Edgar Allan Poe, A Queda da Casa de Usher, uma fonte de inspiração para ela: 

 

“Embora os objetos ao meu redor - os entalhes no teto, as tapeçarias sombrias nas paredes, o negrume de ébano dos pisos e os fantasmagóricos troféus heráldicos que chacoalhavam na cadência de meus passos - não passassem de elementos com os quais, ou semelhantes aos quais, estava acostumado desde minha infância; embora eu hesitasse em não reconhecer o quão familiar tudo aquilo me parecia, não podia deixar de notar que as fantasias que tais imagens banais instigavam eram de origem desconhecida.”

O trabalho de Paula parece situar-se no cruzamento de diferentes influências, como o decorativo do rococó, o expressionismo matissiano e a longa tradição do retrato por exemplo. Mas sua pintura evoca também elementos da pintura figurativa mais recente como o corte (ou crop) que isola um só elemento no quadro: o centro de mesa, o pé do abajur, o embrulho do presente e o espelho peruano. Há também uma operação mais radical que é a pintura se materializando no objeto representado, como acontece em “Tapete Kilim” e “Gamão”. Como disse Paula, “fac-similis em forma de pintura”. Nestes trabalhos a superfície da pintura mimetiza a superfície do objeto representado. As margens são bem delimitadas no limite do chassi provocando um deslocamento interessante entre a bidimensionalidade da imagem e a tridimensionalidade do objeto que é pintura mas é objeto. 

Por outro lado, as pinturas de Estranhamente familiar, me parecem ainda ser uma forma de celebração do prazer de pintar. Um encantamento de Paula com as possibilidades da pintura em tudo oque ela pode gerar de mundos novos e acessar em sensibilidade. Estamos há menos de uma semana da abertura desta exposição e a cada dia Paula conclui uma nova pintura movida pelo desejo de realizar, demonstrando uma enorme energia e dedicação. Ontem foi o bolo para o parabéns e hoje chegou mais um personagem mascarado. 

 

Há ainda nesta casa a galeria de retratos, que é também pista de dança. No fundo, na sala de trás onde está a musica, é lá que uma série de  pinturas de rostos, resultado de um trabalho de colaboração com o maquiador André Mattos, se encontra. Absorvendo referências como Cindy Sherman, Claude Cahun e David Bowie, Paula realizou um conjunto de retratos em que cada personagem é única assim como o tratamento dado às pinturas - por vezes mais gestuais e outras mais decoradas. Vieram pra lembrar que é o tempo da festa.  E “o tempo da festa é diametralmente oposto ao tempo do trabalho. O final do expediente [Feierabend] como véspera [Vorabend] da festa anuncia um tempo sagrado. Se aquela fronteira ou umbral que separa o sagrado do profano é suspensa, resta, dessa maneira, apenas o banal e o cotidiano, a saber, o mero tempo do trabalho.”**

 

Família convida para recepção. Tudo preparado. Bem vindx e desfrute!

Camila Bechelany 

São Paulo, janeiro de 2022

 *Na tradução mais recente do ensaio de Freud para o Português (2019), os autores propõem uma nova tradução do termo: “o infamiliar” mas opto aqui pelo termo “inquietante”, com o qual tenho mais familiaridade e me parece corresponder melhor ao nosso propósito neste texto. Ver Freud, S. (2019). O infamiliar. In Obras Incompletas de Sigmund Freud (Vol. 8). Belo Horizonte, MG: Autêntica. (Trabalho original publicado em 1919) e; FREUD, Sigmund. “O inquietante”. História de uma neurose infantil (O homem dos lobos): além do princípio do prazer e outros textos. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010: 328-376.

**Han, Byung-Chul. Favor fechar os olhos: em busca de um outro tempo. trad. Lucas Machado, RJ, ed. Vozes, 2021. Pag 31-32.